
Frustração
Quando a vida não acontece como esperávamos



Há momentos em que a vida parece dizer-nos "não".
Não agora. Não assim. Não com essa pessoa. Não por esse caminho.
E talvez uma das experiências mais difíceis seja aceitar que nem tudo aquilo que desejamos está destinado a acontecer da forma como imaginámos.
É aí que nasce a frustração.
Aquele aperto interior quando esperávamos uma resposta e ela não chega. Quando demos o nosso melhor e, ainda assim, não obtivemos o resultado que desejávamos. Quando acreditámos numa relação, num projecto, numa oportunidade ou num sonho e a realidade tomou outra direção.
A frustração dói porque, muitas vezes, não estamos apenas a perder aquilo que queríamos.
Estamos a perder a imagem que tínhamos criado sobre aquilo que queríamos viver.
E essa diferença é importante porque, por detrás de muitas frustrações, existem expectativas.
Expectativas sobre os outros. Sobre nós. Sobre o tempo. Sobre a vida. Sobre aquilo que acreditamos merecer.
Esperamos que alguém nos compreenda. Que reconheça o nosso valor. Que corresponda ao nosso amor. Que uma determinada oportunidade aconteça. Que o esforço seja recompensado. Que a mudança aconteça quando decidimos que estamos preparados para ela.
Mas a vida não se move ao ritmo das nossas expectativas. E talvez seja precisamente aí que começa uma aprendizagem profunda.
O que a frustração nos mostra
Quando algo não acontece como esperávamos, somos convidados a olhar para dentro.
O que é que eu estava a esperar?
Porque precisava tanto que acontecesse?
O que é que esta situação despertou em mim?
Medo? Desilusão? Sensação de rejeição?
Injustiça? Impotência?
Necessidade de controle?
A frustração pode ser uma porta para conhecermos partes de nós que permaneciam escondidas enquanto tudo corria como queríamos. Porque é fácil sentirmo-nos em paz quando a vida corresponde aos nossos planos. O verdadeiro desafio começa quando a vida nos apresenta uma realidade diferente. É nesse momento que descobrimos onde ainda estamos presos.
Nem tudo aquilo que não acontece é uma perda
Há uma ideia que pode ser difícil de aceitar: nem tudo aquilo que desejamos é necessariamente aquilo de que precisamos.
Por vezes, insistimos numa porta porque acreditamos que é ali que a nossa felicidade está. E ficamos frustrados porque ela não abre. Tentamos mais, esperamos mais, fazemos mais, pedimos mais. Até que, talvez um dia, percebamos que a questão nunca foi conseguir abrir aquela porta. Era perceber que existiam outras.
Nem sempre conseguimos compreender isto no momento em que estamos a viver a frustração.
Quando estamos no meio da dor, queremos respostas. Queremos saber porquê. Queremos perceber porque é que connosco não aconteceu. Mas há respostas que só chegam quando deixamos de lutar contra aquilo que aconteceu.
Entre o controlo e a confiança
Talvez uma das grandes fontes de frustração seja a nossa necessidade de controlar. Queremos controlar o resultado. Controlar o tempo. Controlar o comportamento dos outros. Controlar o que sentimos. Controlar aquilo que vai acontecer amanhã.
Mas existe uma fronteira invisível entre aquilo que podemos transformar e aquilo que precisamos de entregar.
Podemos escolher as nossas ações. Podemos cuidar das nossas palavras. Podemos colocar limites. Podemos fazer escolhas conscientes. Podemos caminhar na direção dos nossos sonhos. Mas não podemos controlar tudo aquilo que a vida coloca no nosso caminho.
E aprender a reconhecer essa fronteira é uma forma de liberdade. Porque quando deixamos de tentar controlar o incontrolável, recuperamos energia para aquilo que realmente está nas nossas mãos.
E se a frustração tiver um propósito?
Esta é uma pergunta que gosto de fazer quando olho para os acontecimentos da vida através de uma dimensão mais espiritual.
E se aquilo que me está a frustrar estiver também a orientar-me?
Não significa acreditar que tudo acontece por uma razão simples ou que devemos encontrar imediatamente um significado para tudo. Há acontecimentos que simplesmente doem. Há perdas que precisam de ser choradas. Há injustiças que não devem ser romantizadas. Há situações perante as quais temos todo o direito de sentir raiva, tristeza ou revolta.
Mas, depois de sentirmos, podemos escolher olhar um pouco mais profundamente.
- O que esta experiência está a revelar?
- O que me está a pedir para aprender?
- O que preciso de libertar?
- Onde preciso de me posicionar?
- Que parte de mim está a pedir para ser ouvida?
Talvez a frustração não esteja apenas a mostrar-nos aquilo que não conseguimos ter.
Talvez esteja a mostrar-nos aquilo que ainda precisamos de compreender em nós.
A Alma nem sempre escolhe o caminho mais fácil
Quando falamos de propósito, missão ou caminho da Alma, existe por vezes a tendência para imaginar que estaremos sempre a caminhar em direção àquilo que desejamos.
Mas talvez não seja assim. Talvez o caminho da Alma nem sempre seja o caminho que o nosso ego teria escolhido.
Há desvios. Há pausas. Há portas que se fecham. Há encontros que terminam. Há planos que se desfazem. E há momentos em que somos obrigados a parar porque já não podemos continuar da mesma forma.
É precisamente nesses momentos que podemos descobrir que perder uma direção não significa necessariamente perder o caminho. Às vezes, precisamos de deixar de olhar para onde queríamos chegar para conseguirmos perceber para onde a vida nos está a conduzir.
O que fazer quando a frustração chega?
Primeiro, não a rejeites.Não precisas de ser espiritual o suficiente para não ficar frustrado. Não precisas de estar sempre em paz. Não precisas de encontrar imediatamente uma lição. Permite-te sentir.
Diz a verdade sobre aquilo que estás a viver.
"Estou triste."
"Estou zangado."
“Estou desiludido.”
"Eu queria muito que tivesse acontecido."
Há uma enorme honestidade em reconhecer aquilo que sentimos sem nos julgarmos por sentir.
Depois, quando a emoção tiver espaço para existir, pergunta-te: o que depende de mim?
E pergunta-te também: e o que não dependede mim?
Talvez seja aí que começa a entrega. Não uma entrega passiva. Uma entrega consciente.
A capacidade de dizer. Eu fiz a minha parte. Agora permito que a vida me mostre o que vem a seguir.
Talvez a verdadeira aprendizagem esteja aqui
A frustração não precisa de desaparecer para encontrarmos paz.
Podemos estar frustrados e, ainda assim, continuar a caminhar. Podemos não compreender e continuar a confiar. Podemos não gostar do que aconteceu e, ainda assim, aceitar que aconteceu. Podemos desejar profundamente uma determinada realidade e, ao mesmo tempo, abrir espaço para outra.
Porque talvez a verdadeira maturidade não esteja em conseguir que a vida aconteça como queremos. Talvez esteja em desenvolver dentro de nós a capacidade de permanecer inteiros quando ela acontece de outra maneira. E talvez, um dia, olhando para trás, percebamos que algumas das situações que mais nos frustraram foram precisamente aquelas que nos obrigaram a crescer, a escolher-nos, a libertar o que já não nos pertencia e a aproximarmo-nos mais de quem verdadeiramente somos.
Por isso, quando a frustração chegar, talvez não seja necessário perguntar apenas: porque é que isto não aconteceu?
Experimenta perguntar: o que é que a vida me está a convidar a ver?
Pode ser que a resposta não chegue imediatamente. Pode ser que precise de tempo.
Mas talvez descubras que, por detrás daquilo que parecia ser apenas uma porta fechada, existia um convite. Um convite para parar, para escutar, para confiar. Para mudar de direção. E, sobretudo, para voltar a ti.
Porque, às vezes, a vida não está a afastar-te do teu caminho. Está apenas a ensinar-te a reconhecê-lo.
AMA
Ana Maria Almeida
Terapeuta ao Serviço da Energia Universal
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